sábado, 18 de outubro de 2008

Music Box




Ela tinha uma bailarina nos olhos. Que dançava, em movimentos sincronizados, circulares, fazendo companhia às outras meninas. As dos olhos.
Os olhos eram cor-de-mel e os movimentos da dança da bailarina eram doces. Pontas, bicos de pés, graciosos rodopios sobre o próprio corpo.
Ela precisava de movimento. Não gostava do sossego, da paz. Precisava do movimento, ainda que fosse discreto, sob a forma da dança da bailarina que morava nos seus olhos.
E a bailarina dançava e dançava sem parar. Rodopiava no ar, entre os castelos que ela construia. Ficava tonta de tanto dançar. Quase que embriagada.
Um dia, a corda da caixa de música acabou. E a bailarina parou. E os seus olhos deixaram de ser o palco da dança fugaz. Os castelos dissiparam-se. A bailarina descalçou as sapatilhas e os olhos deixaram de ser cor-de-mel e doces. Agora, são apenas os olhos dela. Vazios de ballet.

sábado, 11 de outubro de 2008

Desafio ao Miguel (dou-te o mote e tu dás-me a volta?)


Sentara-se no anfiteatro da universidade que não era a dela. Aliás, há uma meia dúzia de anos que deixara de estudar e a ideia de ir assistir a uma aula de Design, parecia-lhe uma lufada de ar fresco, a ela que era de uma área de estudo tão antagónica.
Assim que entrou na escola antiga e com humidade nas paredes e olhou em redor, arrependeu-se de ter acedido ao convite. Um conjunto de alunos desfraldados ainda com acne (já não existem veteranos académicos de charme?) e um bando de miúdas de jeans, ténis e fios punks, fizeram-na sentir-se absolutamente desadequada.
Esgueirou-se para o fundo da sala, perante os olhares críticos dos miúdos que comentavam o ar executivo e desfazado, quem sabe até, confundindo-a com uma professora. Apeteceu-lhe fazer um comentário mordaz em voz alta mas sucumbiu aos apelos misericordiosos da amiga que a tinha trazido.
Tirou da pasta uma "Exame" e decidiu que iria lê-la até ao fim. O professor entrou e ela nem sequer levantou os olhos para o fixar. A voz dele como pano de fundo, grave e pausada. O silêncio recalcado da boa centena de estudantes que enchiam o anfiteatro: canetas a cairem no chão, tosses ocasionais, o barulho lá ao fundo do motor do Datashow. No seu horizonte visual, apenas as páginas da "Exame" e o tempo de duas horas a passar muito rapidamente.
A aula termina sem campaínha, apenas porque alguém, talvez o professor, se tenha lembrado de olhar para o relógio ou quem sabe, talvez, tivesse em si um relógio de ponto interno. Todos se levantaram em desordem e ela deixa todos saírem sem levantar os olhos da última página.
Quando o silêncio se instala, fecha as páginas da revista, enrola-a e arruma-a, novamente na pasta de couro preto.
Levanta os olhos, ainda a tempo de fitar o professor a sair da sala, a esgueirar-se pela porta, pasta de computador na mão.
Dele lembra-se apenas da figura robusta e da nuca cheia de cabelos mesclados. Aposta, internamente, como de certeza que tem cãs brancas. Voltará, mais tarde, para se certificar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Terror (isto)



Este fim-de-semana vi um documentário acerca do 11 de Setembro. Falava-se nos suicídas do atentado. Não os suicídas muçulmanos, que defendiam uma causa religiosa fundamentalista. Mas, sim, os suicídas que trabalhavam no World Trade Center e que tiveram que escolher entre morrerem queimados e asfixiados ou saltarem pela janela dos seus escritórios.
Parece-me, a mim, que em situação de morte iminente, cabe ao ser humano reclamar o seu último reduto de humanidade: o poder de decisão. E se os factores externos têm o poder de nos pressionar, de nos limitar o leque de opções, a escolha será, em última análise, um direito que nos assiste.
Nestes últimos meses, a morte esteve perto: para mim e para ti. Falo-te da "morte emocional", que é muito mais derradeira que a física. E sei que compreendes bem. E se, neste momento, te sentires uma zombie, uma morta-viva deixa que te pergunte: preferes morrer queimada e asfixiada ou alinhas num voo picado para a morte?
Eu, que morri também emocionalmente nos últimos meses confidencio-te a minha conclusão: morrer por morrer, morro consciente da liberdade plena de voar sem asas. De sentir taquiardia e aproveitar os últimos segundos de uma vida plena de humanidade. De, como diz o Pedro Abrunhosa num dos seus brilhantes poemas, "ser dona do céu". Pensa nisto. Miss you.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Morr(eu)


Já toquei na morte algumas vezes. Sei o que é estar-lhe à porta. E sei que tudo pode acabar numa idiota batida de chapa de um carro ou num aperto mais forte de uma porcaria de um músculo, cardíaco que seja. Tenho essa noção, todos os dias quando acordo. Sei que há coisas que não se pode adiar, sem que andamos cada dia mais próximos do fim do prazo de validade.

Talvez, por isso, goste de viver tão intensamente e neste ritmo frenético que muitos não conseguem compreender. o meu escritor preferido dizia que "O amor não se adia".

Eu acho que a vida não se adia. Nascemos sozinhos. Morremos sozinhos. Pelo meio, aproveitemos os outros. Vivamos, experimentando as coisas boas e más. Aprendendo as lições, errando as vezes que forem precisas e as que não forem precisas mas que sejam inevitáveis. Errando porque temos que errar, porque precisamos de errar, porque queremos errar, até.

Mas vivamos sem medos dos outros porque os outros estão lá no meio, apenas. Os outros ajudam, amparam, acompanham mas os outros nunca serão nós. Os outros, demasiado importantes, não são os outros. Somos nós nos outros São os outros um bocadinho em nós.

Confundimo-nos Nascemos sozinhos. Morremos sozinhos. Já aqui disse. Vou para longe este fim-de-semana. Contra a aprovação dos outros. Contra o que diria o bom senso, os bons costumes, contra o que seria certo e esperado eu fazer. Quando morrer, morro sozinha mas vou de barriguinha cheia. E o que eu já vivi, ninguém me tira.

Egoísta, eu? Não, tenho apenas a noção que vivemos intimamente, interiormente e inrinsecamente sós

domingo, 20 de abril de 2008



Uma estrada sem alcatrão
Um GPS sem sentido de orientação
Uma rede a baloiçar
Uma serra quase à beira mar
Uma cancela que se tem que abrir
Gargalhadas sempre a explodir
Um chá que se partilha
Um mapa que se palmilha
Um canção que se adultera
Um relógio sem tempo de espera
Um carrocel no lençol
Chuva picada em vez de sol
Demonstrações públicas de carinho
O doce sabor de se fazer caminho
O chão de pedra molhado
Mais que um cigarro fumado
Um espelho a reflectir sedução
Mil orgasmos numa só expressão
O crime num bago de uva
A redenção desta chuva
Um cheiro que se torna familiar
Uma sede infinita de se provar
Passados absolutamente escancarados
Futuros possivelmente projectados
Dar vida a uma cama de dossel
O sabor de um sol de mel
O reconhecimento de um beijo
A redenção do desejo
Cabeças tapadas por mantas
Estas recordações: tantas.
Já não se estar tão sozinho
Partilhar um copo de vinho
Uma casa, uma serra e uma mó
E não deixar um instante de estar
só.

domingo, 16 de março de 2008

Ele decidira que terminara, sem sequer ter começado. Não a queria para nada. Não havia lugar para ela na vida dele: horários trocados, caminhos trocados, ideias trocadas, sentimentos trocados, medos trocados, propósitos trocados, trocas trocadas. Ele sentia-se idiota: afinal, a troca de nada se deixara envolver.
Ela sabia-o seduzir Ela sabia que o sabia seduzir e sabia-o fazê-lo com uma mestria sedutora. Uma ideia a consumia: não se deixar envolver. Quando sentia que alguém lhe ocupava a mente mais tempo que o que se permitia, colocava em pratica a infalível teoria da substituição: "Não há como uma paixão para curar outra".
Ele acreditava no poder redentor (redutor?) da paixão: no calor da envolvência: na possibilidade de procurar o amor pela única razão dele aparecer sem aviso de recepção. Acreditava e enchia os pulmões de ar- como para ganhar fôlego- de cada vez que a beijava.
Ela rejeitava o beijo: aquele beijo. Em bom rigor, o beijo dele era o motivo- mesmo que inconsciente- para ela sentir que não resultaria. Abominava o beijar arejado, como quem sopra um balão. Faltavam ali elementos: língua, saliva, tacto. Isso facilitava, de longe, o não envolvimento."Love is a game"- escrevera-lhe ele na contra-capa de um livro que lhe oferecera. Para ele partilhavam o essencial: o gosto pela leitura do mesmo escritor de eleição. "Asfixia-me"- implorara-lhe um dia, a injectar-lhe um beijo cheio de ar. Ele queria-a: corpo e alma, sem pudor mas com entusisamo refreado (uma espécie de premonição). Sentia orgulho na sua companhia: tentava abraçá-la enquanto esperavam que o semáforo dos peões ficasse verde, abria-lhe a porta cada vez que ela queria passar, punha-lhe a mão em cima dos ombros enquanto caminhavam na calçada.
Ela não cedia ao prazer do sexo, mesmo que ele garantisse verbalmente que podia ser encarado como ocasional e descomprometido. Percebia nos olhos dele a não concordância com as palavras: sempre abominara os malditos românticos.
Ele tentava "cortar-lhe" as jogadas com as cartas mais pequenas do trunfo. Aqueles pequenos gestos que denunciavam o sentir pela alma. Mas fora o corpo que o fizera decidir-se a pôr termo aquela amizade coloridamente desigual e desequilibrada.Ela não se importava. Jogava aquele jogo como quem joga uma partida de krapô. Dois homens: dois baralhos: dois jokers. O trunfo era copas e era ela quem tinha o ás, rei e valete. "Rei morto, rei posto"- pensava a dama.
No fim, sobrava-lhe a ela apenas o ás de copas (essas danadas!). Nada a fazer: ambos perderiam naquele que era o prazer de jogar pelo jogo. Rei de espadas atiradas à terra, gastas de tanto lutar.